O texto de hoje é uma reflexão a cerca do consumo de uma maneira geral e também de  um movimento crescente no Brasil e que  ate alguns anos atrás não era parte da nossa cultura,a black friday. Esse dia que promete grandes liquidações e muitas ofertas é uma data muito celebrada no Estados Unidos logo após o feriado do dia de ação de graças e vem sendo incorporado a nosso calendário e gerando a ansiedade pelas melhores ofertas,melhores preços,melhores promoções e oportunidades de comprar a mais diversa sorte de produtos.

Não se pretende aqui a prepotência de emitir um valor moral acerca dessa necessidade e ansiedade geradas pela black friday apenas vamos analisar o fenômeno sob o olhar da psicologia e de alguma forma tentar compreende-lo enquanto manifestação de um fenômeno humano.

Nós enquanto humanidade estamos lidando a todo instante com os bens de consumo eles são parte integrante da nossa sociedade e servem até como motivadores para as relações interpessoais, em certos casos,o problema não esta nos bem de consumo; não seria o querer um celular novo,um liquidificador novo,ou um par de sapatos novos pois essa motivação e desejo são adequadas  para o ser humano, porem fenômenos como a black friday despertam o que dentro da psicologia social vai ser tratado como massificação o sujeito se perde enquanto identidade para a massa  e a massa visa agir por ela mesma e nesse caso a necessidade é de suprir a vontade de comprar e a quase sempre ilusão da economia de alguns poucos ou muitos trocados.

O nosso representante cultural da black friday poderia ser descrito como o aniversario Guanabara,que sempre gera muitas situações fortes e grotescas que acabam virando piada na internet,mas assim como na black friday existe ali um agente que é coletivo,aqueles sujeitos já não são indivíduos estão difusos nas massas tanto quanto um torcedor em meio a torcida de seu time  do coração ou um policial militar que em um protesto age de forma truculenta quando em sua conduta cotidiana seu comportamento seria o oposto,são esses fenômenos de grupo que transformam o individuo em parte da massa, e alteram seu comportamento drasticamente.

A massificação é um fenômeno importante para entendermos o que leva os sujeitos a esperarem horas e se estapearem por ofertas e promoções,mas certamente não é o único e é preciso pensar também que antes de chegarem a massa houve uma motivação individual que os levou ate ali,e para isso talvez seja interessante refletir o quanto os objetos e bens de consumo representam uma posição não apenas de conforto,quando se consegue comprar um produto de qualidade, mas também representam substitutos que podem preencher vazios internos, são “tampões” de carência nos mais diferentes níveis.

Tomemos como exemplo o aniversario Guanabara, as  pessoas se dispõe a uma cena quase que de  guerra,porque aquela oportunidade de comprar alimentos a preços tão mais baixos é a chance que um pai ou mãe de família tem de dar aos seus filhos muita coisa que talvez eles não pudessem comer durante o resto do ano ou pode ainda representar uma rara oportunidade de manter a dispensa cheia pelos próximos 2 meses, e fazer o salário mínimo parecer digno e dar por um instante um poder de compra que não se vive no dia a dia,ao contrário para grande maioria dos brasileiros se passa longe da fartura plena.Nesse caso então os alimentos supririam essa carência social e ate mesmo afetiva que poderia ser gerada já que não poder dar sustento ou se seu filho pedir algo e você não tiver possibilidade de  comprar é bem provável que isso gere frustração.

Voltando pra black friday temos o mesmo principio, a ideia de que o seu consumo naquele momento pode visar preencher algo e ai a pergunta é : o que o seu consumismo está tentando preencher? Você pode estar simplesmente em busca de produtos que não tem possibilidade de comprar normalmente e espera essa data para ter acesso a eles, mas e quando simplesmente se compra por que o preço estava baixo, e não isso não se aplica só a black  friday afinal esse é o papel do mercado, nos fazer comprar,porem é preciso perceber pra que se compra tanto o que não é necessário será que nesse caso não estaríamos suprindo carências?.

O dinheiro é simbolicamente um representante de poder,não por acaso se usa a expressão poder aquisitivo, mas podendo ter o poder que uso nós fazemos dele? não aqui dizendo que não se deva comprar e consumir,apenas levantando a reflexão de se o que você compra faz sentido de alguma forma para você ou se é meramente essa demonstração de poder? Não seria uma afirmação de eu posso, então eu faço mesmo sem pensar se devo? Seria como uma auto afirmação ou talvez uma afirmação para outrem? Isso é algo a ser analisado individualmente,mas a grande  questão gira em torno de  qual a sua necessidade? que espaço você quer preencher ? É  esse de fato o seu querer?

Somos movidos basicamente por nossos desejos, qualquer vertente psicológica que trabalhe com o inconsciente vai demonstrar a importância do desejo enquanto motivador do ser humano nos mais diversos aspectos da sua vida, porem o que essas linhas também vão dizer é que o que as vezes entendemos como desejo na verdade é uma forma inconsciente de suprir outras questões,nosso desejo de fato é por outras coisas,mas vamos achando substitutos no meio do caminho,e isso principalmente por conta de nossa historia de vida, que acabam tapando esses buracos já que não conseguir suprir nosso desejos gera muita ansiedade e angústia.

E os objetos principalmente servem nesse sentido simbólico de “acalmar”nossa psiquê,um exemplo simples mas que representa bem isso e demonstra o quanto associamos objetos como representação de afeto é o fato de as crianças terem quase sempre objetos que representam a presença da mãe,objetos que estão ligados ao tempo que passam com a mãe e acabam se tornando pequenos “substitutos” na falta dela e aqui cabem os mais diversos exemplos como chupeta,mantinha,um ursinho de  pelúcia  e já indicam que o nosso desenvolvimento psíquico adota essa tendência, é como se desde pequenos entendêssemos que as vezes objetos substituem afeto.

E ai fica a reflexão de para que estamos consumindo aquilo,para que precisamos das  6 camisas quando não usaremos nem duas delas ou dos 10 pares de sapato que ficarão engavetados? Que afetos estamos suprindo e que vazio é esse que não podemos enxergar?Na psicologia costumasse dizer que todo excesso esconde uma falta e que falta pode ser essa que as vezes nos faz comprar a mais só pra nos distrairmos? Qual a possibilidade que temos de repensar nossa relação de consumo e principalmente nossa relação conosco nesse consumo?Será que esses objetos não trazem algum significado simbólico que seu inconsciente vem tentando expressar? Eu apostaria que de alguma forma sim,mas isso já é uma analise que demanda tempo e individualidade e esse texto se propõe apenas a levantar essa questão e realmente fazer questionar a esse respeito,o que eu consumo é de fato o que eu quero? Freud costumava dizer que o inconsciente tem essa capacidade de direcionar a nossa vida e se não nos atentarmos a isso acabamos reféns de nós mesmos.

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