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O que X-men tem a nos ensinar?( vai ser um textão, mas é um textão legal eu juro!)

Desde a sua criação lá em 1963,Stan Lee pensava em abordar com as historias dos filhos do átomo elementos que tratassem das minorias(judeus, negros, gays) e o passar das décadas tivemos sagas que mostravam isso de uma maneira fabulosa e sempre apresentando principalmente os pontos de vista dos oprimidos e sua luta contra a opressão sofrida podemos destacar por exemplo Deus ama, o homem mata, Massacre de mutantes, Dinastia M ou Os Surpreendentes X-men, sagas essas que tratam da questão do preconceito e da marginalização daqueles que por algum motivo eram tidos como diferentes pela sociedade.

A primeira capa já trazia em letras miúdas a frase” Os heróis mais estranhos de todos” e de fato quando as histórias não estavam girando em torno de viagens e impérios intergalácticos o foco é sempre nessa estranheza que os mutantes sofrem ao não se adequarem a sociedade.

Isso se reflete tanto em termos individuais, quando alguns personagens refletem conflitos individuais, ou em contextos generalizados e de representação mais ampla .Aqui eu vou direcionar o meu olhar para apenas três momentos afim de construir um olhar sobre a temática vigente em torno da possibilidade de liberação de interpretação da resolução 01/99 do CFP(Conselho Federal de Psicologia)

E ao pensarmos em contextos sociais precisamos falar de “Deus ama, o homem mata” veremos a perseguição cruel aos mutantes e o ódio sendo disseminado principalmente com pano de fundo religioso nas palavras de Willian Stryker, que prega que os mutantes são odiados por Deus. Essa afirmação de Stryker tem repercussões drásticas no desenrolar da saga ,mas que não fogem as angústias que muitos sofrem na vida real.

O massacre de mutantes, gerou um grande extermínio entre os mutantes, menos aceitos inclusive dentro da propria população mutante,os Morlocks. Os Morlocks eram mutantes que em sua maioria sofriam por que as suas mutações geravam distorções e aberrações físicas. Enquanto boa parte dos mutantes podia ainda tentar se integrar a sociedade por conta de sua aparência, os Morlocks já estavam duplamente marginalizados.

Na saga dos surpreendentes X-men, que começou a ser lançada em 2005 aqui no Brasil, e serve de inspiração para o filme X-men o confronto final. Temos uma narrativa que gira em torno do desenvolvimento de uma vacina que poderia suprimir o gene X,curando os mutantes. A saga apresenta um desenrolar que leva diversos X-men a questionarem se deveriam ou não fazer uso da vacina e mostrando uma construção bem elaborada inclusive do vilão Ord do Grimamundo ,que busca eliminar os mutantes pois eles seriam os responsáveis por exterminar o seu povo.

Olhando estes três pontos percebemos que  é fácil entender a relação entre os quadrinhos dos X-men e como eles serviriam de uma alegoria direta a essa discussão que sempre retorna, a possibilidade de oferecer aos sujeitos a possibilidade de reorientar seu desejo sexual.

Os X-men tem suas características e habilidades decorrentes de um gene chamado gene-X, que lhes conferem suas características, não adentando aqui na discussão sobre a origem do desejo e direcionamento sexual de cada sujeito, pois este não é um assunto sobre o qual se exista um consenso. Trataremos aqui apenas de como os sujeitos não são responsáveis por isso, bem como os x-men também não são por suas características.Ambos os grupos sofrem as pressões e repressões sócias que os levam a não aceitação pelo fato de serem como são. O gay tal qual o X-men não é responsável, são sujeitos que não devem ter que  optar em não serem o que são.

Ao levantarem a possibilidade de interpretarmos  a homossexualidade enquanto processo que pode ser “reorientado”, e principalmente com o discurso que é camuflado de que isso se faz pelo bem e possibilidade dos sujeitos que quiserem deixar de ser gays. Talvez não fosse mais importante levantarmos a questão de quais angustias levam esses sujeitos a  pensarem  em deixar de ser gays? Ou o quanto os valores morais e religiosos implícitos que pregam a abominação que é deitar-se com um sujeito do mesmo sexo, influenciam na dificuldade de aceitação dos sujeitos? Será que o mais pertinente  aqui não seria pensar só no sujeito e nas suas angustias? O grupo que movimenta essa possibilidade de redirecionamento da sexualidade, está fundamentado apenas em valores morais e fundamentalmente religiosos, não existe base teórica dentro da psicologia para corroborar esse tipo de “contribuição”  aos quais estes “profissionais” afirmam exercer.

Tal qual os X-men, muitos destes sujeitos vem o ódio por si mesmo sendo introjetados lentamente pelos discursos vigentes, principalmente os discursos baseados nas relações de poder e controle das praticas sexuais alheias.O profissional de psicologia não é um normatizador do comportamento, nossa pratica tem que ser pautada em possibilitar a liberdade dos sujeitos em serem o que são, entendermos suas angustias e ajuda-los a lidar com elas.

Dentro dos X-men, vemos sujeitos que conseguem lidar bem com o fato de serem mutantes/e ou membros de outras minorias étnicas, homoafetivos  e que conseguem elaborar a questão de serem como são da melhor maneira possível, e também temos sujeitos que tem a maior dificuldade em lidar com suas questões, reflexo da vida real. Nós, seres humanos, de maneira geral já temos dificuldade em nos aceitarmos como somos, o processo de auto descoberta e de desenvolvimento nós mesmos já não é um processo fácil. O preocupante assim como nos quadrinhos é querer normatizar e fazer como que estes sujeitos não possam ser quem são.

Se um sujeito tem angustia qualquer com relação a sua sexualidade um profissional de psicologia pode ajudar muito a lidar com essa angústia, mas não pode dizer a um sujeito que ele vai poder abrir mão de algo que lhe constitui. Um sujeito pode redirecionar sua sexualidade durante a vida? Talvez, os seres humano são capazes de praticamente qualquer coisa.  mas isso não implica que esse tenha que ser o caminho , que será preciso redireciona-lo para uma normatividade e uma enquadramento proposto pelos “Willian Stryker” ou “Ords do grimamundo”. Nos quadrinhos os vilões estão mais nítidos e representam justamente essa figuras que na sociedade as vezes se permeiam como defensores de valores altruístas e em prol da coletividade. Nos quadrinhos os panoramas sempre terminam com extermínio e genocídio, com crianças sendo forçadas a buscar a “cura”, e com levantes extremamente violentos.

Os mutantes, chamados brilhantemente por Magneto (judeu diga-se de passagem) como homo superiores, sempre enfrentaram e  sempre lidaram com toda a sorte de violências e marginalização, e enquanto manifestação artística as HQs nos permitem lidar com questões relativas ao nosso próprio inconsciente. Existem representações de diversos grupos étnicos e de elementos sociais que podem servir de alivio aos sujeitos que tem contato com esse conteúdo. Mas essa já é uma historia para um outro momento. Por hora, fiquemos com a reflexão de como os quadrinhos dos X-men podem apresentar elementos que representam reflexos da sociedade e como tal devem servir para repensarmos nossas praticas e realidade. O quanto as vezes estamos reproduzindo, Deus ama, o homem mata, o massacre de mutantes ou a cura mutante como tentativa de marginalizar e alienar alguns grupos dentro da sociedade?

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