Esse texto é mais um relato do que de fato uma grande transmissão de elementos teóricos, ele é  parte de uma reflexão de todo o movimento que tenho observado em relação a mobilização com as figuras de super heróis nos últimos anos.

 

Quando comecei a escrever trechos pro meu trabalho de conclusão de curso lá em 2014, ainda de forma muito embrionária pois ainda teria mais um ano de graduação até ter que de fato começar a escrever, eu já era questionado sobre a necessidade do meu tema e que importância real ele teria para a Psicologia.

 

Naquele momentos meu tema se resumia a : Historias em quadrinho e a construção da mitologia moderna. Meu objetivo era mostrar como as HQs traziam pro nosso tempo as mesmas funções psicológicas  que a mitologia exerceu ao longo da história da humanidade, porém pra muita gente isso parecia algo totalmente irrelevante.

 

Passou se o tempo e chegou de fato o momento de começar a escrever a monografia e assim foi feito, as perguntas sobre relevância e importância do tema se intensificavam:

– Mas pra que a Psicologia vai estudar super heróis? Esse tema é bem infantil,né?!. Onde isso se encaixa como contribuição a sociedade?! Entre tantas outras perguntas e criticas embora essas tenham sido as que mais me fizeram.

 

Quando comecei o trabalho ele tomou outro rumo, deixei de tratar apenas do aspecto mitológico das Hqs e resolvi dar um passo mais ousado, tratar das Hqs usando a psicologia analítica para avaliar a maioria dos aspectos que ela traz, desde a representação simbólica que heróis possuem ate a relação de transferência e projeção que o sujeito pode fazer para os arquétipos que constituem as figuras heróicas. Enfim, fora um trabalho hercúleo e bem ousado mas que deu muito certo no final.

 

Hoje olhando pro resultado final eu vejo que faria muita coisa diferente, mas dentro do que eu conhecia da teoria e das limitações que eu possuía naquele momentos e até mesmo pela complexidade da temática escolhida a finalização de Historias em quadrinhos: uma visão analítica é algo que dá vontade de saber mais sobre o tema, e ai é que muitos dos que perguntaram qual era a relevância daquele trabalho puderam entender que não era só uma analise psicológica de heróis ou de suas personalidades. Era uma observação de porque as pessoas escolhem determinados heróis  como herois favoritos, era uma amostra de porque as figuras heróicas refletem elementos do inconsciente coletivo, era uma afirmação categorica de que as HQs são sim uma construção mitológica e por isso trazem toda a carga arquetipica e suas implicações psicológicas.

 

Dito tudo isso eu venho responder qual a relevância do meu trabalho com super heróis e psicologia? A resposta já se dá observando a repercussão de filmes como Mulher Maravilha e Pantera Negra, os super heróis possibilitam uma representação de conteúdos inconscientes que são facilmente identificados. Historias em quadrinhos e filmes são em primeira instância obras de arte, e toda obra de arte possibilita esse tipo de reconhecimento, pois de acordo com Barcellos (2004), devemos pensar em uma obra de arte que ofereça uma leitura simbólica tanto para a coletividade quanto para uma época, e que sirva ao trabalho individual de um paciente com os símbolos utilizados em análise. E, enquanto representação simbólica observa-se que o símbolo contém a sugestão de um significado para além de nossa capacidade de compreensão, podendo ser então interpretado.

 

A psicologia deve sempre atentar-se para os temas emergentes dentro do contexto social como possibilidade de representação de conteúdos psíquicos, as Histórias em Quadrinhos, trazem em seu conteúdo muitos elementos da cultura popular. Encontram-se diversas referências a momentos históricos e situações cotidianas contribuindo, assim, para que os quadrinhos e as histórias de super-heróis possuam a relevâncias de um olhar Psicológico a seu respeito.

 

Ao analisar este tema parte-se do pressuposto de que se abre um precedente de estudo dentro da Psicologia Analítica que permite, através da relação transferencial com o arquétipo, e da projeção de aspectos da Personalidade. Avaliar alguns elementos da escolha que cada um faz por elencar e identificar-se com as figuras presentes nestas narrativas, quais manifestações do Inconsciente Coletivo se manifestam no Zeitgeist, e como a observação destas pode auxiliar no direcionamento do processo de individuação( conversa que fica pra um proxímo texto) . Uma observação das Histórias em Quadrinhos e de seus conteúdos possibilita um olhar sobre a possível relação da transferência para o herói e o conteúdo Inconsciente daqueles que “realizam” essa escolha, já que o fenômeno da projeção e o fenômeno da transferência ocorrem num nível Inconsciente, mas podem ser integrados a consciência.

 

O que é esse tal Zeitgeist? Zeitgeist é um conceito da Filosofia que vai falar do espirito de época, e eu acredito que toda essa movimentação criada nos quadrinhos enquanto reflexo social, vai de acordo com a possibilidade de representação do Zeitgeist , que a arte possui. A fala de  Hegel (1992),nos diz que o Zeitgeist, é definido como o espírito de uma  época, é o movimento que existe na sociedade dentro de um momento no tempo. Esse espírito de época mobiliza os sujeitos que vivem nele de alguma forma como uma influência no contexto sócio-histórico-cultural através da manifestação artística, que representa sempre um conteúdo a ser expressado e conceitualizado.

Quadrinhos e super herois são sempre reflexos da sociedade, desde seu inico na era de ouro (decáda de 1930) a figura do super héroi  já servia como um auxilio psicológico para lidar com elementos  e fantasias inconscientes, equilibrar a realidade psicologica interior ( inconsciente) com a exterior (consciente). Desde a primeira aparição de Superman o inconsciente viu surgir uma nova era mitologica que lhe auxiliou a encontrar simbolos para se manifestar. Nesse sentido pressupõe-se  aqui que o Zeitgeist é uma manifestação arquetípica oriunda do inconsciente coletivo, por isso se faz  capaz de manifestar-se não apenas individualmente mas sim coletivamente, haja vista que o arquétipo se manifesta a partir do inconsciente coletivo pois segundo Jung (2002),  essas imagens primordiais que se denominam arquétipos, pertencem ao substrato fundamental da Psique Inconsciente , não podem partir da experiência de vida do indivíduo ou mesmo somente através de suas aquisições pessoais.

 

Só esclarecendo o que é um Arquétipo, de acordo com Jung (1998), os arquétipos são núcleos de energia dotada de polaridade quese encontram no Inconsciente Coletivo. São também denominados de imagens primordiais, e se configuram como não apreendidos pela experiência do indivíduo, não se encontra no arquétipo explicação que parta de uma vivência empírica. Podem ser explicados como  resultado do depósito das impressões superpostas deixadas por certas vivências fundamentais, comuns a todos os humanos, repetidas incontavelmente através de milênios ou como sendo disposições inerentes à estrutura do sistema nervoso que conduziriam à produção de representações sempre análogas ou similares.

 

 

As figuras de hérois são figuras formadas por Arquétipos, elas não são meros constructos sociais, pelo contrario elas trazem em si bases que permeiam a história da humanidade desde seus tempos mais antigos e se perpetuam pelos milênios atraves das diversas manifestações mitologicas e artisticas. É por conta dessas manifestações arquetípicas que os heróis e personagens surgidos nas Hqs estariam relacionados com uma necessidade coletiva pois, através da função transcendente que segundo Jung (2002) é a possibilidade do inconsciente reconhecer em elementos externos conteúdos que agregam a seu próprio desenvolvimento ou equilíbrio os heróis que se difundem em dado momento histórico conseguem cumprir essa função.

Nossos Hérois e Divindandes nesse sentido hoje se encontram representados simbolicamente nas Figuras do Superman, Batman, Flash, Demolidor ,Homem Aranha ,X-men, entre tantos outros. Mas pra falarmos sobre as duas figuras que inspiram esse post, Mulher Maravilha e Pantera Negra irei falar um pouco sobre que represenbtações eles trazem e porque causaram tanta comoção a apresentação desses filmes.

A Mulher Maravilha é uma figura ligada diretamente com a mitologia do feminino, ela é uma descendente direta dos deuses e seus poderes e habilidades se dão por conta dessa manifestação divina. A Mulher Maravilha, faz com que as mulheres se conectem com as deusas interiores no sentido simbólico e arquetipico, e  com seja lá o que for que cada deusa possa trazer enquanto representação arquetípica. Poderíamos falar do Cuidado Materno de Hera ou do aspecto cruel e vingativo que ela também possui, poderíamos associa-la com o poder de sedução de Afrodite, mas em contrapartida também a dificuldade de dosar esse elemento sedutor, Talvez a Sabedoria de Athena se manifestaria positivamente enquanto o excesso de pensar que a deusa possuía também se manifeste ou a polaridade de guerra e bélica. Isso falando das deusas do contexto greco-romano que é onde a personagem se constitui, o fato é que ela enquanto símbolo e arquétipo permite as mulheres terem contato com as mais diversas manifestações do feminino que residem em camadas profundas de  seus inconscientes.

 

Segundo Bolen (1990) os elementos do sagrado feminino se encontram presentes nas representações simbólicas que as mulheres ou homens, embora o foco aqui seja a figura feminina, tem capacidade de representar ao longo da vida, e através dos arquétipos as mulheres teriam possibilidade de ampliarem sua consciência e manifestarem elementos constituintes do seu Self, e consequentemente representando todo o seu potencial. “A reflexão e assimilação do conhecimento das “deusas e a mulher” propiciam para o ser humano, homem e mulher, um guia para a sua alma, em busca de sua integridade.”(Bolen.1990.p.7).

Com relação ao Pantera Negra, vamos falar de um aspecto aqui simbolico de empoderamento coletivo num aspecto racial, e que tambem é arquetipico já qeu o arquetipo se transmite de geração em geração trazendo as experiências de ancestralidade, a comoção geral  provocada pode ser ligada a eventos arquetipicos das mitologias de raiz africana.

 

É importante aqui salientar que não existe uma unidade no que diz respeito a mitologia africana pois enquanto um continente muito extenso e com muitas diversidades existem pontos em comum entre determiandos grupos,mas tambem existem diferenças nos cultos a entidades e na maneira como o Mito se controi. Vamos focar aqui num aspecto geral de que nas mitologias africanas temos os povos negros como sendo superiores e vencedores, seus deuses e entidades são os criadores do mundo e  se encontram pra usar  uma expressão moderna como ” pretos no topo”. O filme tráz em si toda essa representações de mitologia africana construida nas relações tribais, nos proprios simbolos totêmicos e principalmente observa-se uma orientação  em direção a um conceito relativamente recente que é o do afrofuturismo, que foi um movimento nascido na mesma decada de criação do Pantera Negra ( anos 60)  e foi elaborado pelo músico,poeta e filosofo Sun ra. Muito resumidamente o Afrofuturismo traz o resgate das heranças mitologicas,cosmologicas,historicas dos povos africanos em corelação direta com os avanços tecnológicos e inovações em todos os aspectos.

 

Acho que fica nitido entender como a relação entre a manifestação das figuras de super herói e a maneira como a sociedade reage a elas é um ciclo continuo e que demosntra manifestações que fogem da interpretação cosnciente. Os super herois embora sejam uma manifestação que não possuam muito tempo de vida, hoje se tornama cada vez mais e mais enraigados na cultura popular e seu entendimento ajuda e muito a compreender sujeitos e sociedade.

O importante desse tudo é levantar a reflexão de que temos  necessidade dessas figuras heroicas para nos amparar sobre praticamente qualquer situação psíquica em que nos encontremos, pois é essa justamente a função da mitologia e do Herói, servir de guia e facilitar a elaboração e apreensão de conteúdos psicológicos.

 

Volto em breve pra falar mais especificamente desses e outros heróis, mas por hora é só isso mesmo. Se você gostou do texto compartilha nas suas redes.Gratidão

 

 

Referências Bibliograficas

 

BARCELLOS, Gustavo. Jung, junguianos e arte: uma breve apreciação. Pro-Posições, Campinas, v. 15, n. 1, p. 43, 2004. Disponível em < http://www.proposicoes.fe.unicamp.br/proposicoes/textos/43-dossie-barcellosg.pdf > acesso em 05 de junho de 2015

BOLEN, Jean Shinoda. As deusas e a mulher: nova psicologia das mulheres. São Paulo: Paulus, 1990.

HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do espírito – parte I. Petrópolis: Vozes, 1992

JUNG. Carl. Gustav. Os Arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis Editora Vozes 2002

2 comentários

  1. Muito interessante!!Estou praticamente no mesmo dilema haha Decidi fazer minha monografia (curso de pedagogia) sobre ” Super heróis e transtornos pós- traumáticos” (Ainda não defini bem o título), e estou com um pouco de dificuldade em delimitar o assunto…Mas vou continuar tentando, não pretendo trocar de tema para ficar mais confortável. Um Abraço!

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