No dia 4 de Julho de 1920, nascia na ficção Steve Rogers também conhecido como Capitão América. E aqui irei falar um pouco do efeito psicológico que esse personagem teve desde sua primeira aparição em 1941 servindo como simbolo máximo do nacionalismo americano e refletindo bastante os interesse do governo dos E.U.A que entrariam em breve no conflito bélico.

Capitão América estreou em sua Hq em Março de 1941, a capa de estreia já o trazia esmurrando Adolf Hitler no rosto, e o enredo mostrava basicamente como um super soldado americano poderia mudar os rumos da segunda guerra mundial. Oficialmente os E.U.A só adentraram a segunda guerra após o ataque a Pearl Harbor que ocorrera em Dezembro do ano de 1941,então o Capitão já precedera o ideal de vitória e a “luta da liberdade” dos EUA .Uma das minhas principais hipóteses com relação as HQs é a maneira como elas se relacionam com o Zeitgeist ( espirito de época) através dos conteúdos arquetípicos que constituem seus personagens e com isso manifestam elementos relativos ao inconsciente coletivo. Explicarei brevemente esses conceitos que são um tanto complicados e demandariam muito espaço.

O inconsciente coletivo é segundo C.G Jung, uma parcela do Inconsciente que independe das experiências do individuo para sua formação, o Inconsciente Coletivo é formado basicamente por instintos e Arquétipos, representações sem forma definida de motivos e temáticas significativas durante a historia da humanidade. Ainda sobre a camada mais profunda, Jung (1975) observa-que a escolha do nome coletivo é justamente para demonstrar essa possibilidade de acesso que independe de questões físico, geográficas e espaciais. E que de alguma forma existe uma rede de informações que é partilhada por toda a humanidade, independentemente de onde quer que se encontre o homem, seja no tempo ou no espaço, e essa rede de informações só vai sendo alimentada conforme a humanidade evolui. Logo, o Inconsciente Coletivo é compreendido dentro da perspectiva da Psicologia Analítica como sendo uma parcela que vai sendo herdada, pelas gerações subsequentes, é através dele que são transmitidos os conteúdos arquetípicos e instintivos, e para Jung (2007), a existência do Inconsciente Coletivo é uma prova da evolução da Psique.

Ainda de acordo com Jung (1995), o significado particular de uma verdadeira obra de arte reside no fato de que pode escapar das limitações do pessoal e elevar-se para além das preocupações pessoais de seu criador. Com isso, pode-se considerar que, a partir do momento no qual a interpretação artística traz em si elementos que são de caráter geral, as Histórias em Quadrinhos também podem permitir este tipo de interpretação, pois como manifestação artísticas que são indicam a possibilidade de transmissão de material arquetípico através do Inconsciente Coletivo. De acordo com Dutra apud Jarcem (2007 p. 02) “As Histórias em Quadrinhos, como todas as formas de arte, fazem parte do contexto histórico e social que as cercam. Elas não surgem isoladas e isentas de influências. Na verdade, as ideologias e o momento político moldam, de maneira decisiva, toda a produção que se manifesta nos gibis e aqui entra o elemento que relaciona as Hqs, o Inconsciente Coletivo e o Zeitgeist.

Toda essa movimentação criada nos quadrinhos enquanto reflexo social, vai de acordo com a possibilidade de representação do Zeitgeist, que a arte possui. Segundo Hegel (1992), o Zeitgeist, é definido como o espírito de época, é o movimento que existe na sociedade dentro de um momento no tempo. Esse espírito de época mobiliza os sujeitos que vivem nele de alguma forma como uma influência no contexto sócio-histórico-cultural através entre suas várias formas de manifestação, está justamente a manifestação artística, que representa sempre um conteúdo a ser expressado e conceitualizado.

Nesse sentido pressupõe-se aqui que o Zeitgeist é uma manifestação arquetípica oriunda do Inconsciente Coletivo, por isso se faz capaz de manifestar-se não apenas individualmente mas sim coletivamente, haja vista que o Arquétipo se manifesta a partir do Inconsciente Coletivo pois segundo Jung (1975), essas imagens primordiais que se denominam Arquétipos, pertencem ao substrato fundamental da Psique Inconsciente , não podem partir da experiência de vida do indivíduo ou mesmo somente através de suas aquisições pessoais.

Dito isso tudo, voltemos ao Sentinela da Liberdade. Como ja foi apontado anteriormente o Capitão América, foi criado algum tempo antes da entrada dos EUA na Segunda Grande Guerra, e talvez vocês aqui irão se perguntar como ele representaria algo que ainda não existia e ai entra a beleza de como o Inconsciente trabalha em ligação com o Zeitgeist. O Inconsciente consegue antever situações e momentos, tanto a nível individual quanto coletivo e tudo isso em um caráter simbólico, e o Capitão América é uma imagem arquetípica dos ideais americanos que já se movimentavam no Inconsciente naquele momento.. Ele é uma a representação de diversos elementos que permeiam o inconsciente principalmente o Arquétipo do Herói e toda forma de manifestação que o Inconsciente encontra e sempre através do simbolo.

Sendo então o simbolo elencado pelo inconsciente coletivo naquele momento, se faz importante salientar que os quadrinhos serviam como uma ferramenta de transmissão de informação e conteúdo. Esperava-se que, através deles, os leitores se identificassem com as características dos Heróis apresentados. Afinal, como esclarecem Klawa e Cohen (apud RAHDE, 1996, p. 108) já afirmavam que “é necessário que a história em quadrinhos seja entendida como um produto típico da cultura de massa ou, especificamente, da cultura jornalística”.

Essa representação e influencia que as Histórias em Quadrinho de Super-heróis apresentavam, demonstra que o Herói, enquanto figura que traz a possibilidade de identificação e projeção, possivelmente encontrava no Capitão América, de maneira arquetípica, um reflexo do que era o desejo americano. A manifestação artística representava o interesse social de alguma forma e extrapolava as questões que eram relativas somente ao seu criador. Estabeleceuse, nas histórias de super-heróis assim, um momento marcante com a instituição de novos mitos como possibilidade de explicar a realidade, e possibilitar ao homem daquele tempo sonhar em realizar o que as figuras icônicas podiam executar, as funções de transferência e projeção propostas por Jung (2005) para a figura do herói possivelmente encontraram, assim, uma nova manifestação arquetípica.

Sob a égide do escudo de Steve Rogers, o Capitão América, pressupõe-se que diversos americanos inflamaram seus sentimentos de patriotismo, O Capitão fora criado como um soldado que passava por experimentos que o tornavam o soldado perfeito segundo Vianna (2009) O super-herói foi reforçado por um uniforme – totalmente inspirado na bandeira dos Estados Unidos, além de possuir um escudo, representando simbolicamente a proteção Americana o capitão foi responsável por inúmeras vitórias do exército , na ficção e na realidade.

Com isso entende-se que o personagem possibilitava que todo americano em contato com suas historias, levando em conta que o numero de revistas em quadrinhos que se vendiam naquela época estimavam-se em torno das casas dos milhões, era muito plausível que os sujeitos pudessem projetar e transferir seus sentimentos relativos a guerra na figura de Steve Rogers , e com isso esses elementos eram trabalhados por meio de um mecanismo psicológico chamado de função transcendente, que permite aos sujeitos elencar símbolos para dar conta de características constituintes da sua própria Psique. Resumidamente é através da função transcendente que buscamos maneiras de lidar com os conteúdos que se encontram nas nossas instâncias inconscientes, mas não adentrarei no mérito de como isso funciona, ao menos não nesse texto. o importante aqui é perceber como o inconsciente de um povo tomou forma na figura do Capitão América, representante máximo, até pouco tempo atrás, dos ideais e patriotismo americanos.

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