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Recentemente com o lançamento do trailer de Shazam!, antigo Capitão Marvel,  na San Diego Comic Con muitas pessoas tomaram conhecimento desse personagem que retomou um pouco da sua fama após o reboot da editora Dc Comics que ficou conhecido como os novos 52. Muito embora  Shazam! já tenha tido um tempo áureo de fama durante o período da sua criação na década de 40, o personagem acabou caindo em um limbo mesmo depois de ter seus direitos adquiridos pela sua atual editora (Dc comics) que não produzia muitas historias relevantes ( tirando uma minissérie aqui ou uma participação acolá)  utilizando o personagem, e o Capitão Marvel que rivalizava diretamente com Superman como sendo um dos títulos mais vendidos das Hqs, foi relegado a sombra de coexistir na editora com tantos outros  personagens icônicos.

Apenas uma breve observação, este texto acabou ficando mais “acadêmico” do que eu esperava, trazendo muita coisa direta dos autores que fundamentam minha linha teórica e isso pode tornar a leitura mais chata ou menos fluída  então achei melhor avisar antes que você se proponha a ler

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Esse texto vai falar um pouco dos elementos arquetípicos mais presentes no personagem, a relação entre os Arquétipos do Puer Aeternus (criança eterna) e do Senex ( velho). Ambos Arquétipos se encontram arraigados na estrutura do personagem e são elemento fundamental  de sua constituição, já que é através da relação simbólica que existe entre eles que se desenvolve boa parte da mitologia do herói. Essa relação simbólica ocorre como uma forma do inconsciente de projetar seus conteúdos nas manifestações artísticas.

Em 1941 a editora americana Fawcett Comics, lançou a sua versão de um super-herói que inovou por não possuir um sidekick infantil , mas ser ele mesmo a principio o seu próprio sidekick. Os sideckicks eram os ajudantes dos heróis, mas também eram uma maneira de inserir personagens infantis na maioria das historias, esses elementos infantis possibilitariam uma maior identificação do público, alavancando vendas, com a mitologia dos heróis em questão. Num aspecto psicológico, os sidekicks representariam uma projeção e identificação das próprias crianças que teriam contato com a obra. No caso de SHAZAM! ou Capitão Marvel resumindo a longa história  do herói  temos como protagonista  um garoto  jovem chamado Billy Batson, a idade de Billy assim como as circunstâncias nas quais ele vive enquanto órfão variam de acordo com status do personagem na época dos seus reboots. Billy recebe seus poderes do mago SHAZAM para se tornar o campeão da humanidade. Esses poderes consistem na Sabedoria de Salomão, Força de Hércules, Agilidades de Aquiles, Relâmpagos de Zeus, Vigor de Atlas e velocidade de Mercúrio. Outros campeões do Mago SHAZAM invocam o nome de outras figuras mitológicas, Mary Marvel por exemplo invocava Selene. Hipolita, Ariadne,Zéfiro, Aurora e Minerva posteriormente usou as mesmas figuras que SHAZAM! e mais recentemente os mesmos que Adão negro. Adão negro deriva seus poderes de deidades egípcias  Shu (resistência, vigor); Hórus (velocidade, capacidade de voo); Amon (super-força);Zehuti(sabedoria); Aton (poder) e Mehen(coragem).

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Este herói, embora na época considerado uma cópia do Superman, carrega as características de diversas outras imagens arquetípicas. Além de ser uma imagem simbólica da criança que torna-se o herói, representa também  a transformação direta da criança arquetípica na sua potencialidade plenamente desenvolvida. Através da utilização da palavra mágica SHAZAM!, Billy invoca os poderes de diversas imagens que habitam o Inconsciente Coletivo. Todas as figuras que representam os poderes concedidos a ele são aquilo que conhecemos na Psicologia Analítica como Imagens Arquetípicas.

Imagens Arquetípicas, são representações de Arquétipos, são uma maneira  simbólica de dar forma ao conteúdo arquetípico, já que o mesmo não tem forma definida. De maneira bem breve podemos entender um Arquétipo como sendo uma representação imaterial do conteúdo presente no Inconsciente coletivo. É através dele que se tem acesso a toda essa gama de conteúdo ainda não consciente e que aparece em qualquer cultura independente do tempo. É uma manifestação hereditária, que se forma a partir da Psique primitiva e vem sendo transmitido geração após geração, contemplando em si possibilidades de significação de vivências e experiências compartilhadas por todos. Segundo JUNG (2002), os Arquétipos são núcleos de energia dotada de polaridade que se encontram no Inconsciente Coletivo. O Inconsciente Coletivo pode ser entendido como a parcela da psique que independe das experiências de vida de um sujeito, em essência ele é constituído por conteúdos arquetípicos e instintivos.

Segundo JUNG (2002), o Inconsciente Coletivo compreende toda a vida psíquica dos antepassados desde os seus primórdios. É o pressuposto e a matriz de todos os fatos psíquicos e por isto exerce também uma influência que compromete altamente a liberdade da consciência, visto que tende constantemente a recolocar todos os processos conscientes em seus antigos trilhos. O inconsciente coletivo é o que nos possibilita simbolizar de maneira tão semelhante,mas ao mesmo tempo única, as figuras marcantes que encontramos nas mitologias, contos de fada e em qualquer manifestação artística significativa.

Dito isso, precisamos compreender que todo o conteúdo presente no Inconsciente Coletivo é passível de interpretação simbólica, e ai é quando o Arquétipo ao ser evocado e receber os elementos culturais aos quais esta inserido se torna uma imagem arquetípica. Podemos observar essa possibilidade na fala de JACOBI (1986) onde a autora nos diz que o Arquétipo enquanto  “sistema de prontidão” ou “centro energético invisível”,  é, sem dúvida alguma, sempre um símbolo potencial e, quando existe uma constelação psíquica ( agrupamento de elementos psíquicos que interagem entre si) geral ou uma posição adequada do consciente, ele está sempre pronto para se atualizar e aparecer como símbolo.Shazam-CN

O que tudo isso tem a ver com SHAZAM! ? Simples, como eu disse anteriormente todas as figuras que formam o nome do herói são símbolos em potencial e que servem para trazer elementos do inconsciente. O foco aqui não é elucidar a relação de todas elas mas vale ressaltar que ao se utilizar dos elementos mitológicos com parte da invocação de seus poderes, o jovem Billy se nutre dos mais diversos elementos simbólicos que tais figuras representam como uma  forma de se tornar o campeão da humanidade, é como se simbolicamente o próprio Inconsciente Coletivo tomasse forma na representação de  SHAZAM!,  como forma de proteger a humanidade.

Figuras mitológicas representam possibilidades de conteúdo relativo ao inconsciente coletivo como estabelecido por JUNG (1986, ), “[…] a mitologia como um todo poderia ser tomada como uma espécie de projeção do Inconsciente coletivo”. É através dessa projeção que o conteúdo arquetípico consegue se manifestar dos arquétipos através dos símbolos e ser reconhecido, posteriormente pela consciência. O mito serve para que se possa reconhecer os conteúdos Inconscientes, eles podem ser entendidos como um grande espelho no qual reflete-se a existência humana. Parte-se do pressuposto de que através do mito enxergamos as vivências coletivas e com isso se reconhece a vivência individual, os mitos são constituídos basicamente através das manifestações de figuras arquetípicas como aponta BOECHAT (2000).

Os sujeitos a terem contato com a figura de SHAZAM!, conseguem através de mecanismos inconscientes projetarem seus próprios conteúdos na relação com essas deidades que lhe concedem poder. E possivelmente essa possibilidade tenha sido grande responsável pelo sucesso do personagem em seus anos dourados pois o publico era majoritariamente infantil e no contato com o personagem podia elaborar parte de seus conflitos, principalmente se estes tivessem relação com algum complexo que se encaixe na historia de Billy. A história do personagem girou durante muito tempo em torno de temáticas familiares, de superação, os aspectos do abandono e de por a prova essa dualidade de ser uma criança e a ainda sim dar conta de todos os seus poderes e atingir seu lugar como campeão da humanidade, o que possibilita muito facilmente que ocorra um fenômeno. de identificação com o personagem.

Essa representação de criança que é algo fundamental para o personagem se mostra como uma representação do que consideramos como  Arquétipo do Puer Aeternus. Billy Batson é  em si a representação desse Arquétipo da criança eterna, descrito por Von Franz em sua publicação homônima, que desenvolve toda sua potencialidade, tornando-se assim a criança divina. O Puer, para Von Franz (1992), apresenta também características que remontam a uma sombra infantil, o que é uma característica constante na Personalidade do Capitão Marvel. essa sombra se mostra como um conflito entre as atitudes infantis que ocorrem em alguns momentos que se chocam com toda a responsabilidade( principalmente na que vem em forma de conselhos pela sabedoria de Salomão).

Esse Arquétipo do Puer Aeternus é o nome de um deus da antiguidade, um deus criança advindo da obra Metarmophoses, de Ovídio. No mito contado pelo autor romano  puer é “o deus da vida, da morte e da ressurreição o deus da juventude divina. O título Puer Aeternus, portanto, significa juventude eterna, mas também é, frequentemente, usado para identificar pessoas que levam suas vidas como adolescentes (VON FRANZ, 1992). O Puer para Von Franz (1992) está ligado diretamente com o arquétipo da grande Mãe. Esse não crescer que se apresenta na figura de Batson, pode ser representado no fato de ser órfão e, em termos arquetípicos, todas as figuras que lhe transformam em deus são provenientes de imagens arquetípicas masculinas, o que indiretamente faz com que  as energias femininas não  lhe concedam a possibilidade de libertar-se da infância. Em essência o Arquétipo do Puer é a representação de todas as possibilidades que uma criança possui. E dele que vem a idealização de que uma criança tem potencial quase ilimitado de transformação dependendo de como se dá o seu desenvolvimento. Na figura de SHAZAM! a criança atinge a máxima potencialidade com a ajuda do Mago SHAZAM e essa contra-parte é fundamental para entendermos o eixo Puer-Senex representado na mitologia de SHAZAM.

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O jovem Billy não daria conta da sua responsabilidade se sua contra-parte não fosse a ideia de uma figura idosa e detentora de alguma sabedoria.Existe ainda uma dualidade no principio de Billy representar o Arquétipo do Héroi ( lutando contra injustiça,superando limites,tornando o mundo um lugar melhor) , enquanto o Mago SHAZAM representa o Arquétipo do Mago( conhecimento,sabedoria,transformação) e ai já percebemos  que o personagem é formado nas dualidades que buscam algum equilíbrio.

Para HILLMAN (1999), o Puer na verdade precisa  sempre buscar e encontrar uma maneira de equilibrar-se com a figura do Arquétipo Senex, o Arquétipo do velho que contrapõe toda a imaturidade e energia infantis com sua sabedoria e maturidade complementares as polaridades do Puer. No caso do Capitão Marvel essa contra parte fica por conta da figura do próprio Mago SHAZAM, o primeiro Campeão. que  concedeu ao jovem Billy as habilidades de figuras mitológicas, para que o menino pudesse tornar-se o campeão da humanidade. Enquanto representação arquetípica, JUNG (2002) aponta que “O velho sempre aparece quando o herói se encontra numa situação desesperadora e sem saída, da qual só pode salvá-lo uma reflexão profunda ou uma ideia feliz […]”. Billy era um órfão em situação de abandono, uma situação que o colocaria diante da possibilidade de superar todas as limitações que possuía e tornar-se o mortal mais poderoso da terra.

Percebemos na relação dos dois a necessidade do equilíbrio psíquico que Puer-Senex poderia  proporcionar, pois ao somar-se a maturidade, sabedoria e  experiência do Senex a todo o potencial divino do Puer caminha-se em direção a uma expansão do elementos inconscientes e da própria consciência. O Senex está ligado com elementos de tempo cronológico e relativos a própria alma ao passo que o Puer é sempre a renovação, o novo que renasce do velho (tal qual SHAZAM! que se torna o sucessor do Mago) e apreende com a experiência de seu antecessor. Em HILLMAN (1999) veremos que “Entre os aspectos positivos do Puer encontramos: espontaneidade, curiosidade, liberdade, mudança, pressa, fantasia tanto quanto irresponsabilidade, desligamento da realidade, onipotência […] no Senex encontramos: compreensão, lentidão, paz, sabedoria tanto quanto rigidez, impotência, negatividade…”. Nesse sentido SHAZAM! e o Mago são entendidos como faces opostas da mesma moeda e o equilíbrio entre essas imagens arquetípicas é fundamental para que se compreenda o potencial simbólico que toda a mitologia do personagem possui.

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O Mago SHAZAM vive nas névoas do tempo espaço e a sua relação com as figuras infantis da família Marvel mostra o quanto o equilíbrio entre o antigo e o novo, o equilíbrio entre Puer e Senex são uma questão aparente e que demonstra o caráter psicológico e simbólico das Hqs. Os quadrinhos servem para a atualidade como formas de simbolizar e entender elementos do inconsciente e nas páginas de SHAZAM! é possível perceber  nitidamente essa relação, trazendo ainda mais a possibilidade de representação dos quadrinhos como elementos que auxiliam na organização dos conteúdos psicológicos.A Criança e o Velho trazem as reflexões sobre juventude, maturidade, velhice e desenvolvimento de potencial que podem ser aplicadas e observadas nos mais diversos contextos, e aqui isso ocorre com apenas uma palavra mágica: SHAZAM!

Referências Bibliográficas

BOECHAT, Walter Mito na teoria e na prática da Psicologia Analítica. Disponível em http://pablo.deassis.net.br/wp-content/uploads/Mito_Teoria_Pratica.pdf acessado em 18 de outubro de 2015.

HILLMAN, James. O livro do Puer: ensaios sobre o Arquétipo do Puer Aeternus. São Paulo: Paulus, 1999.

JACOBI, Jolande. Complexo, Arquétipo, Símbolo na Psicologia de C. G. Jung. São Paulo: Cultrix, 1986

JUNG. Carl. Gustav. Os Arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis Editora Vozes 2002

JUNG, Carl,Gustav, O espirito nas artes e na ciência. Petrópolis Editora Vozes 1986

Von FRANZ, Marie. Louise. Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância. São Paulo: Paulus, 1992.

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